terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tempo de Fingir

Para produzir essa postagem, eu optei por utilizar algumas músicas e suas mensagens como apoio ao que quero me referir.
Ouvir tais músicas e ler suas letras superficialmente, ao meu ver, pode ser um sinal de alienação: não pensar a que a letra quer se referir ou o que quer denunciar. Por outro lado, organizar os versos e analisar a letra com mais atenção e senso crítico nos leva a ter um entendimento mais claro e mais consciente diante do que elas se referem.
Eu marquei cada ideia com números para localizar mais facilmente sua respectiva análise que se encontra ao final da letra, para fim de organização e comodidade.


O Medo - Lily Allen

Eu quero ser rica, e quero muito dinheiro
Eu não me importo com inteligência, eu não me importo com diversão *(1)
Eu quero muitas roupas e montanhas de diamantes
E eu ouvi que as pessoas morrem, enquanto tentam encontrá-los. *(2)

Eu tirarei minhas roupas e isso não será vergonhoso
Porque todo mundo sabe que é assim que se fica famoso
Eu olharei para o "The Sun" e olharei o "The Mirror" (jornais)
Eu estou no caminho certo, yeah estou prestes a ser uma vencedora *(3)

Eu não sei mais o que é certo nem o que é verdadeiro
Eu não sei mais como devemos nos sentir
Quando você acha que tudo vai ficar claro?
Porque eu estou sendo tomada pelo medo *(4)

A vida é sobre estrelas de cinema e não sobre mães
É tudo sobre carros rápidos ultrapassando uns aos outros
Mas isso não importa porque eu tenho cartão de crédito
E é isso que faz da minha vida tão fantástica.

Eu sou uma arma de consumo em massa
E isso não é minha culpa, foi como eu fui programada
para funcionar
Eu olharei para o sol e olharei no espelho
Eu estou no caminho certo, vou ser uma vencedora *(5)

Eu não sei mais o que é certo nem o que é verdadeiro
Eu não sei mais como devemos nos sentir
Quando tudo vai ficar claro?
Porque eu estou sendo tomada pelo medo
Esqueça sobre armas e esqueça sobre munição
Porque eu estou matando todos com minha pequena própria missão
Eu não sou uma santa mas não sou uma pecadora
Tudo está bem desde que eu esteja emagrecendo *(6)

ANÁLISE

(1) A partir da criação de uma personagem caracterizada como oportunista e mesquinha, Lily Allen a descreve como uma pessoa que descarta tanto diversão como inteligência para alcançar seus objetivos fúteis de fama e riqueza.

(2) Uma das razões de sua personagem querer tanto dinheiro é comprar roupas novas. Além de jóias com diamantes caros, embora ela tenha consciência, que muitas pessoas não tem, que a indústria do diamante é um negócio sujo. Muitas pessoas morrem tentando encontrá-los nas minas escuras a sua busca. E também dos diamantes de sangue, utilizados para apoiar conflitos violentos na África, como a guerra civil em Serra Leoa na década de 90.
A segunda forma de analisar esse trecho é que muitas pessoas dão tudo para serem ricas e acabam se perdendo na sua busca por fama e dinheiro, ou morrem tentando fazer isso, numa forma de auto-destruição.

(3) Nessa estrofe, ela se refere a uma situação que é muito comum aqui no Brasil, "tirar a roupa para ficar famosa", pousar nua para revistas, provavelmente. Mulheres e homens que se tornam famosos a partir da exposição e erotização do seu corpo.

(4) Todas as outras estrofes são muito irônicas quando comparamos com essa, que parece a mais sincera de todas. A fama pode levar as pessoas ao delírio, diante de sua natureza surreal, a uma alienação, um estado de superioridade, de poder, etc. O medo que ela fala não fica muito explícito durante a música, mas podemos presumir que trata-se do medo de dar tudo que tem para atingir um estado de fama e sucesso, o preço que se paga para alcança-lo, exposição da vida pessoal, a drogas, falta de privacidade ou então medo de perder tudo que consegui até aí, a fama, o dinheiro, sua alma, seu eu...

(5) Essa estrofe trata muito da nossa realidade, ao que a mídia dá mais valor e glorifica: celebridades e suas vidas particulares que são expostas a todo minuto, nas redes sociais, sites de fofoca, na televisão, nas revistas... Temas como esse, geralmente levam as pessoas a uma situação de alteridade com a celebridade. Ela se vê famosa, rica, com status sociais, aparecendo na mídia, sendo aclamadas pelos seus (súditos) fãs. Nos remete a uma obsessão moderna, um sentimento de fixação no dinheiro, carros, fama... e é claro, alienação. As pessoas querem ser famosas a qualquer custo, na música temos os exemplos perfeitos disso: abandonar a educação, a diversão, sua vida para correr atras do status social, sem ter consciência do que está deixando pra trás e onde está se metendo.
Quantos anúncios de produtos vemos todos os dias na televisão? De carros novos, de novas tecnologias. Nosso discurso se tornou em apenas consumir, consumir e passar na frente de todo mundo. Somos programados desde cedo a comprar, consumir, nos iludir.

(6) "A caneta é mais poderosa que a espada" é uma ideia que ela nos passa - que dar autógrafos é mais importante ou gratificante que lutar, que é isso que está dominando o mundo. Assim que ela se torna famosa ela se torna poderosa, tem o poder de destruir as pessoas não através de armas e sim de palavras.
Ela tem a ilusão de que se torna "santificada" quando se torna popular, famosa. E não acredita que seja uma pecadora, apenas que está no caminho certo, pelo menos para ela, fazendo o que lhe convém.

Em notas curtas, essa letra nos fala do que seria o desejo de muitos que buscam a fama e não sabem quais seus preços e o quão perigoso é esse mundo, que pode ser assustador a medida que vamos perdendo nosso self, nossa alma, nós mesmos num processo de adaptação a manequins e exigências da mídia. Num processo de alienação, de perda de nossos princípios, do que realmente importa e um enquadre no que que realmente devemos fazer para alimentar empresas que querem sugar sua energia e transformá-la em dinheiro em cima das pessoas, de um talento, de uma imagem.

Gabriel Savaris

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